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sábado, 31 de março de 2012

Leo Brouwer & Cergio Prudencio - Música Nueva Lationamericana nº 8 [1981]


"Quando se fala em cultura, se pensa em Europa", diz o compositor cubano Leo Brouwer em 1978. De fato, se pedirmos para um cidadão médio, mesmo latino-americano, citar compositores de música erudita, as respostas vão em sua maior parte consistir em compositores alemães ou de outras partes da Europa, geralmente mortos há mais de cem anos. O boliviano Cergio Prudencio é enfático: "não podemos continuar subsistindo em base a uma arte passada e estrangeira". Estas afirmações foram feitas mais de trinta anos atrás, mas ainda se aplicam. O compositor latino-americano tem no seu trabalho o desafio de trabalhar com as três vertentes culturais que compõem sua identidade: a européia, a índia e a negra. Historicamente, a européia se sobressai - e para as outras duas resta a luta pela sobrevivência.

Este disco é o oitavo volume da série Música Nueva Latinoamericana, do selo uruguaio Tacuabé. A tarefa proposta por essa série é a de oferecer um panorama introdutivo - porém não superficial - da música de concerto feita nos países da América Latina. Esse volume apresenta duas obras que exemplificam as duas soluções propostas para o compositor latino-americano que queira criar algo que seja relevante para a sociedade em que está inserido. As soluções são a busca da contemporaneidade e a definição de uma identidade cultural que se sobressaia à sua origem conflituosa e multipolar. A obra do cubano Brouwer exemplifica o primeiro ponto: com um título carregado de significado, La tradición se rompe... pero cuesta trabajo, composta no final dos anos 60, é uma grande colagem controladamente aleatória de clichês orquestrais dos grandes mestres da música clássica, de Bach a Beethoven a Dvorak, colocados juntos de maneira quase caricatural - a tradição é modificada forçosamente e emerge nessa obra como algo novo. A peça de Cergio Prudencio, La Ciudad, é um exemplo da incorporação de elementos nativos na música. É uma obra para orquestra de instrumentos nativos, incluindo o sicu, a tarka, o moceño, a quena ou o pinquillo, e é construída com base em um poema da boliviana Blanca Wiethüchter.

Tracklist:

01 - Leo Brouwer - La tradición se rompe... pero cuesta trabajo
02 - Cergio Prudencio - La Ciudad

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Irakere & Leo Brouwer - Concierto / Teatro Karl Marx / Ciudad de la Habana [1978]


Imagine o cenário: num teatro lotado do Rio de Janeiro da década de setenta, Heitor Villa-Lobos magicamente reaparece dos mortos, senta com seu violão no meio do palco e começa a tocar um chorinho sozinho. No meio da música, as luzes do resto do palco se acendem, e a banda toda entra: é A Cor do Som fazendo um arranjo quase jazzístico do mesmo chorinho. O show dura mais de uma hora, passa por elaboradas jams de música brasileira instrumental, percussões africanas, arranjos sambados de obras de Mozart, forrós conhecidos de todo mundo. Um evento desse tipo não passaria despercebido na história da música mundial.

E voltando ao mundo real, algo muito similar já aconteceu e ninguém sabe. Leo Brouwer, nascido em Havana em 1939 (vinte anos antes da morte de Villa-Lobos), é um compositor e violonista dos mais importantes para a história do instrumento no século XX. A importância que teve Villa-Lobos - no Brasil e no mundo - no repertório do violão clássico do início do século é análoga à importância de Brouwer a partir dos anos 60 e até hoje. Conhecido pelas suas obras de vanguarda, peças para violão solo e vários concertos para violão e orquestra, pouca gente sabe das (significativas) incursões de Leo na música popular - tal qual seu colega Villa-Lobos. Nas palavras de Brouwer: quem disse que uma música é popular e a outra é culta? Que uma é para as massas e a outra para as minorias? Quem disse que a música de concerto - que é a que eu toco - é elitista e a música popular é para dançar?

A principal canalização das forças de Brouwer no mundo da música popular foi o Grupo de Experimentación Sonora del ICAIC, formado no final dos anos 60 e que atingiu o auge da fama nos anos 70. Mas há também essa fantástica colaboração feita em 1978 com o Irakere. O nome irakere vem do idioma iorubá, e significa vegetação - era o nome de uma região da África cuja fama era a de ser o berço dos melhores percussionistas, que segundo alguma lenda teriam desembarcado em Cuba. Embora o grupo com esse nome só tenha se oficializado em 1973, o núcleo já existia pelo menos desde 1967, mais ou menos liderados pelo pianista Jesús "Chucho" Valdés. Eram músicos populares que não estavam interessados em música comercial. Não queriam criar um ritmo novo - como mandava o marketing para as bandas da época - que no final das contas tinha pouquíssimo de novo. O interesse deles era explorar as possibilidades rítmicas da tradição cubana e latino-americana em geral, experimentar combinações percussivas, sem tentar recriar nem criar nada: simplesmente fazer. O resultado foi um dos grupos de música latina mais empolgantes que já existiram - teriam facilmente se tornado um nome incontestável do jazz mundial (muito embora o jazz servisse apenas de base estética, mais do que qualquer coisa), se não fossem as óbvias dificuldades que um grupo cubano de músicos fiéis à Revolução tem de despontar num cenário mundial. Para a nossa sorte, tudo isso foi registrado e pode ser encontrado por quem tiver disposição.


Tracklist:

01 - Scott Joplin - Ragtime: The Entertainer
02 - Misa Negra
03 - Joaquín Rodrigo - Concierto de Aranjuez (segundo movimento)
04 - W. A. Mozart - Adagio
05 - Romance (Juegos Proibidos)
06 - Heitor Villa-Lobos - Prelúdio no. 3 [o verso do vinil erroneamente identifica a peça como sendo o Prelúdio no. 4]

Clique na capa do disco pra baixar

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Grupo de Experimentación Sonora del ICAIC - Vol. II [1974]


O Grupo de Experimentación Sonora del ICAIC, criado em Cuba no final de 1969 foi um marco importantíssimo da música popular cubana. A Revolução Cubana completava dez anos, mas ainda estava longe de atingir o ideal socialista, tendo que lutar para sobreviver a despeito do embargo dos Estados Unidos e para reformular toda a sociedade a partir do zero. Nesse cenário, o governo não tinha condições econômicas de bancar os jovens músicos da ilha para deixá-los no mesmo patamar tecnológico do resto do mundo. Com o objetivo de contornar estes problemas, instrumentistas, compositores e técnicos de som vinculados ao ICAIC (Instituto Cubano de Arte e Industria Cinematográficos, o primeiro órgão de Cultura criado após a Revolução) formaram o Grupo de Experimentación Sonora.

A mente por trás do grupo é ninguém menos que Leo Brouwer, um dos principais compositores e violnistas do século XX. Pouco conhecido pelo público em geral que não é ligado ao violão erudito, Brouwer é respeitado como uma das maiores forças criativas de seu tempo, comparável a Béla Bartók ou Villa-Lobos pela maestria com que conseguiu fundir a música popular de seu país com técnicas experimentais de composição. E nessa época, nos anos 1970, flertou bastante com a música pop.

O Grupo de Experimentación funcionou também como uma espécie de oficina. Brouwer chamou vários músicos cubanos que já tocavam bem, e começou a instruí-los na música erudita. Deu-lhes aulas de contraponto, fuga, harmonia, formas musicais e composição. Em pouco tempo, todos os membros do grupo eram capazes de compor uma trilha sonora ou fazer o arranjo de uma música numa partitura. Nos encontros do grupo, escutava-se e tocava-se de tudo: de Frank Zappa a Gilberto Gil a Ravi Shankar a Iannis Xenakis. Experimentava-se com equipamentos de estúdio, se colocava a música cubana num patamar internacional, equiparável ao movimento musical que existia no Brasil nessa época (no qual o Grupo de Experimentación se inspirou em parte). Embora tenham gravado vários LPs, eles são apenas uma pequena amostra de todo o trabalho que foi feito pelo grupo. Os resultados mais famosos são músicas escritas na linguagem pop, com letras politicamente conscientes, mas que não perdem a ternura e a poesia - uma receita que lembra as obras de Mercedes Sosa ou do grupo latino-americano Tarancón - com temas camponeses, rurais e de exaltação à Revolução Cubana.

Esse disco, de 1974, registra uma pequena parcela da produção do Grupo. É parte integrante e inseparável da história da canção latino-americana, infelizmente esquecida no tempo, mas que sem dúvidas contribuiu para o desenvolvimento do estilo, e influenciou milhares de músicos que vieram depois - mesmo que nem eles saibam disso.

Tracklist:

01 - Cuba va
02 - Para una imaginaria María del Carmen
03 - Canción de todos
04 - El paplote se fue a Bolina
05 - Fragmentos de 27 Noviembre
06 - Éramos
07 - Danzaria
08 - Madre
09 - Quién me Tienda la Mano al Pasar
10 - El Rey de las Flores
11 - Campesina
12 - Un Hombre se Levanta
13 - Si El Poeta Eres Tú
14 - Canción de los CDR
15 - Bachiana Popular Cubana nº 2
16 - La Nueva Escuela
17 - Comienzo el Dia

Clique na capa do álbum pra baixar